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Mostrando postagens de 2020

Jade e Blu

 Nosso porta retrato, no meu quarto, ficava junto com uma miniatura de plástico do casal de araras daquele filme "rio". Sabe, as araras azuis? Não sei por quê eu tinha eles aqui, mas coloquei pertinho porque tinha lido que as araras azuis tinham um amor só pra vida inteira. Pra mim, a gente era um casal de arara azul. E eu queria que você fosse não só o último amor da minha vida, mas o único amor da minha vida. Isso fez com que eu me envergonhasse até dos meus amores da infância. Todos os dias eu tentava me convencer que eu nunca tinha me apaixonado antes de você, que você era minha arara azul. Primeiro e único. É mentira, tenho que te dizer. Me apaixonei antes de você, sim. E depois de você também, algumas boas vezes. Mesmo assim, você continuou sendo primeiro e único em muitas e muitas coisas, mas eu demorei anos pra compreender isso. Hoje eu pesquisei pra ter certeza que as araras azuis tinham mesmo um só amor pra vida toda e li que, às vezes, nem com a morte do outro, ela...

A caixa

 Lembra de uma caixa que você guardava as cartas que eu escrevia pra você e os presentes que eu te dava? Lembra que, quando acabou, você colocou lá as fotos, a aliança e tudo que tinha de mim à vista pelo seu quarto? Você lembra que me fez terminar por telefone porque não queria me encarar num momento em que a gente não fosse mais nós? E você lembra que pegou essa caixa cheia e mandou me entregarem porque você não suportava ficar olhando para aquelas lembranças? Eu lembro. Eu lembro o quanto eu fiquei puta da vida quando recebi aquela caixa e senti que você não queria mais nenhuma lembrança nossa. E eu lembro o quanto eu queria. O quanto eu guardei aquela caixa como um tesouro. Lembro que guardei fora da minha vista e pensei que, é claro que eu também não queria ver aquelas lembranças o tempo todo! Se fosse esse mesmo o problema, você podia ter só guardado escondido em algum cantinho, não precisava se livrar de tudo. Você lembra disso? Lembra que eu gritei com você ao telefone porq...

curaprox

 compramos juntos escovas de dentes que, quando ficavam pertinho, formavam um coração cada uma tinha uma metade e eu só usava a minha quando tava junto com você. quando você usava a sua também eu sentia que aquela era a melhor escova de dentes do mundo inteiro, que eu tava escovando meus dentes com nuvens. não era a toa que ela era super cara a gente terminou e a minha escova de dentes tava mais usada que a sua, joguei a minha fora e peguei a sua pra mim (eu sei, nojento!). eu queria aproveitar um restinho daquelas nuvens nos meus dentes porque eu não sabia qual seria a próxima vez que eu teria coragem de gastar um dinheirão pra comprar uma nova anos se passaram e todas as vezes que eu ia na farmácia eu ficava namorando as escovas de dentes caríssimas. eu ia ao dentista e perguntava se ele não tinha, por um acaso, um desconto pra comprar daquela marca (eu pago, juro!). pedi até pras amigas estudantes de odontologia, mas nunca comprei eu via selfies em espelho de banheiro que mostra...

A metáfora que eu nunca escrevi

Eu ando olhando os outros como grandes cópias de um padrão que eu crio na minha cabeça. Todos muito substituíveis, iguais. O outro não é o outro, é o que eu quero que ele seja. É uma forma muita chata de se relacionar. Quando eu percebi isso, achei que olhava todos os outros como criações do meu desejo, mas hoje falei de você. E lembrei que você é você. Você chegou todo vento solar, usando roupas de calor num dia frio. E quando me olhou e sorriu, senti o calor que vinha de você. Eu nunca mais fui a mesma. Você foi o ar. Vento solar, brisa, furacão. Você tava sempre ali, mesmo quando eu não te via. Eu morro de medo de ser uma só com o outro, quero que fique numa distância segura pra que eu não possa me perder. Mas quando a gente se abraçava, a gente era um só, e eu nunca me perdi. A gente virava um grande e aconchegante não-sei-o-que-sou-eu-e-o-que-é-você. Eu amava. Te amei tanto que quando você foi embora me faltou ar pra respirar. Você era único, mas substituível. Tive que aprender a ...

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 00:10, 24 anos, 2020, 7 meses de isolamento social o lo-fi de uma música que minha mãe cantava sobre meu irmão bebê. algo de mim hoje e algo de mim ontem. o mais perto que eu posso chegar de mim. sempre esperei muito desse dia, muita atenção, muito aplauso. há um tempo quis viver como um dia normal e aprender a olhar pra tudo que eu ganhasse, com mais carinho. foi muito bonito quando eu percebi que não era dever de ninguém fazer o dia do meu aniversário um dia especial, porque foi nesse momento que eu vi o quanto muita gente fazia isso mesmo assim. eu tenho um apego muito grande com o simbolismo dos ciclos, aniversário e ano novo principalmente. lembro de sempre tirar um tempinho sozinha nesses dias e lembro também de escrever nesses momentos, sempre que possível. é minha necessidade de controle. o que não tava bom podia melhorar, eu só precisava pensar um pouquinho no que eu queria que fosse diferente.  quem eu sou? o que eu fiz nesses anos todos? eu gosto de mim? me fiz mui...

Maresia

O mar costumava ser meu lugar favorito do mundo inteiro. Eu ficava horas sentada na areia, molhando os pés na água, sentindo a maresia, observando as espumas flutuarem. Tinha certeza que não existia absolutamente nada mais fascinante do que ele. Eu nunca mais fui à praia. Conheci o mundo, subi montanhas, explorei grandes cidades, viajei em um foguete espacial; mas nunca mais mergulhei no mar. Acho que eu tinha medo do resto do universo todo perder a graça no segundo em que meus pés tocassem a água salgada. Como se eu fosse me sentar na areia e automaticamente ser hipnotizada pela imensidão azul novamente. Acho que tinha medo de ser engolida. Fui à praia hoje.  Não mergulhei, já tinha alguém lá antes de mim... Uma caiçara. Mais nativa do que eu nunca fui. Não mergulhei, mas me sentei na areia, molhei os pés na água salgada e admirei as espumas flutuando. Ele estava cristalino, mais bonito e profundo do que eu me lembrava. E a maresia tinha cheiro de casa. Um dia eu fui caiçara, hoje...

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aos poucos fui entendendo que dentro de casa não cabia tudo o que eu queria que coubesse mas tudo bem, porque era só eu e se fosse só eu, tudo bem, porque eu caibo confortavelmente e tem umas coisas que eu queria fazer comigo mesma há tempos posso passar uma eternidade aqui dentro e eu nem te quero agora deus me livre ficar sozinha aqui é até bom pra te manter longe agora que eu sei que não te cabe é aqui mesmo que eu devo ficar senti um incômodo e quanto mais coisas eu queria fazer comigo mesma, menos eu queria e nada tinha muita graça mas eu também não queria você mas eu nunca soube o que eu queria além de você fica esse estranhamento entre eu e mim mesma e minhas coisas que não têm graça e você que eu não quero e um monte de querer que eu sinto que deveria dentro de casa não cabe tudo o que eu queria que coubesse acho que ela é apertada até pra mim a longo prazo eu sou do universo mais do que você bem mais do que sua eu devia estar lá fora mas ainda assim, sozinha

São Paulo

Eu andei naquela cidade como se fosse a mais linda do mundo. Caminhei com a liberdade de quem sabe exatamente quem é. Olhei pra aquele monte de gente como quem sente o conforto de estar bem no centro do mundo, juntinho. E mesmo no meio do mundo de gente, eu o vi. Se eu pudesse construir alguém do zero, nos mínimos detalhes, naquele momento eu não saberia fazer. Mas quando eu o vi, foi como se eu tivesse construído. Olhei pra tudo que eu queria e não sabia. E na liberdade de ser exatamente quem eu queria ser, descobri mais uma parte de quem eu era. Ele me olhou de volta, no meio de uma rua cheia de gente, na cidade mais maluca do mundo. E não só me olhou de volta, como apressou o passo pra me alcançar. Que bom que ele fez isso. De pertinho ele era ainda mais feito-pra-mim. E eu nem me lembro de nada do que disse naquele momento. A cidade mais linda do mundo apagou em volta dele, e eu só via aquele rosto que eu fiz em detalhes e não sabia. Tudo isso durou uns dois minutos, ou umas vin...

O amor não existe

Você não existir foi a melhor coisa que eu descobri. Não porque você não existir faz com que você automaticamente suma, mas o contrário. Você não existir faz com que você finalmente exista. Todo esse tempo você era literalmente o meu objeto de pesquisa, e eu fazia teses e mais teses pra defender que finalmente tinha descoberto quem você era. Essas teorias duravam muito pouco, mas não importava, porque o combustível do dia-a-dia era justamente essa procura, e não a verdade absoluta. Descobrir que você não existe talvez tenha matado um pouco da diversão de procurar respostas sobre como você funciona, que cor é seu cabelo e se você voa ou não. Mas, por outro lado, a sua não existência anula muito da angústia de você nunca caber. De você nunca ser. De eu nunca saber o que poderia ter sabido, se eu fosse melhor. Você não existir diz que eu nunca posso saber o que não sei. Que alívio. Você não existir, não quer dizer que você não possa existir, quer dizer que você não nasceu. Você nasce, ...

Sobre caixinhas, etiquetas e histórias de amor

Te falei da urgência que senti de falar sobre uma história de amor que já passou, né? Hoje não sinto mais essa urgência, mas ainda sinto vontade de falar de amor. Quando comecei a te escrever, há muitos anos, não sabia que escrevia pra você, achava que escrevia pra mim. E quando comecei a escrever pra você, conscientemente, não percebia que você sempre fui eu. Até hoje não sei onde termino eu e onde começa você, mas gosto assim. Escrevi pela ânsia de organizar, saber sentir, dar nome, explicar, provar. Aprendo diariamente a aceitar - de verdade - que nem tudo se explica, se organiza, faz sentido. O amor não é tão apegado a cronologia, como eu sou. Foi querendo que tudo fosse cronológico e arrumado em caixinhas muito bem etiquetadas, que perdi de fazer o que eu mais gosto: contar histórias de amor. Às vezes eu não estava num momento bom pra escrever, não saía bonito...Ou eu achava que não merecia ser escrito (u absurdo!). E aí, na mania de ser apegada à datas, o tempo passava e eu nã...

Pra te dar mais que só nome

Sinto uma urgência em te escrever, como se não tivessem passado mais de dois anos. Como se tivesse sido ontem. E talvez tenha sido mesmo. Parece que eu só posso te amar dentro das minhas regras. Regras malucas que eu não sei de onde vieram. Te amo se te escrevi. Te amo se doeu. Te amo se durou. Nunca te escrevi, mas fiz doer como quem cutuca uma ferida que não ia nem sangrar, e por isso provoca uma inflamação. Eu fiz doer e durar pra te (me) provar que te amei - e que te amava -, e te fiz sangrar mais do que o dobro do que você sangraria normalmente. Sinto uma urgência em te escrever, pra finalmente poder te amar direito. Queria colocar outra data nessa carta, pro amor parecer mais de verdade dentro das minhas regras estúpidas. Sinto uma urgência em te escrever como senti em te amar, quando te amei. Urgência que hoje faz muito sentido. Muito mais sentido do que fazia dois anos atrás. Na urgência de te escrever, tive que parar pra organizar memórias, coisas que eu queria contar com ...

Então te encontrei pela terceira vez, mas aquele também não era você

Você disse que me amava com todas as letras, mais uma vez. Parecia que você tinha saído diretamente dum filme bem meloso daqueles que eu amo assistir mil vezes e chorar todas as mil. Você segurou meu rosto, olhou no fundo dos meus olhos e disse aquelas frases decoradas e prontas que a gente fica criando na nossa mente quando tá apaixonada por alguém. Quantas vezes eu mesma sonhei acordada em te ouvir falar aquelas exatas palavras num momento daquele, pós briga, aquela emoção que beira uma novela das oito, dava pra sentir nossa tensão sexual há umas cinco quadras de onde a gente tava. E eu não senti nada. Não sei como você conseguiu olhar tão fundo nos meus olhos sendo que eles estavam tão perdidos naquele momento. Eu até acho que olhava diretamente pra você, mas eu não te via. Minha cabeça tava em outro lugar, eu só pensava "ok, cadê as minhas falas? Eu não tava preparada, o que eu tenho mesmo que responder?". E ali minha paixão por você morreu. Tudo que te envolvia parec...

Buraco negro

Oi, Amor Há pouco tempo descobri que sou eu quem explodo, talvez há muito tempo era eu quem explodia. Não sei se sempre foi da mesma forma, se sempre tive o mesmo peso, mas nessa última supernova eu criei um buraco negro. Esse buraco negro não é como um dos meus vazios. Os vazios me fazem ser eu, esse buraco me engole e me desintegra. Te escrever a vida toda me fez acolher essa dor que você me trazia, com carinho. E no meio da confusão que foi não saber quem eu era, me reconhecer nessa nossa dor me trouxe uma segurança estranha. Um jeito particular de masoquismo, que bom que eu reconheço essa dor que vem um pouquinho fantasiada de tempos em tempos. A supernova que eu fui não foi tão bonita quanto parecia que seria. O buraco que eu criei engoliu devagarinho algumas partes de mim e as digeriu até não parecerem mais com elas mesmas. Você ainda vem com um toque especial aqui e ali mas, dessa vez, eu não sei como te receber. Nem como te mandar embora. Nem como respirar com seu cheiro ...