A caixa

 Lembra de uma caixa que você guardava as cartas que eu escrevia pra você e os presentes que eu te dava? Lembra que, quando acabou, você colocou lá as fotos, a aliança e tudo que tinha de mim à vista pelo seu quarto?

Você lembra que me fez terminar por telefone porque não queria me encarar num momento em que a gente não fosse mais nós?

E você lembra que pegou essa caixa cheia e mandou me entregarem porque você não suportava ficar olhando para aquelas lembranças?

Eu lembro.

Eu lembro o quanto eu fiquei puta da vida quando recebi aquela caixa e senti que você não queria mais nenhuma lembrança nossa. E eu lembro o quanto eu queria. O quanto eu guardei aquela caixa como um tesouro.

Lembro que guardei fora da minha vista e pensei que, é claro que eu também não queria ver aquelas lembranças o tempo todo! Se fosse esse mesmo o problema, você podia ter só guardado escondido em algum cantinho, não precisava se livrar de tudo.

Você lembra disso? Lembra que eu gritei com você ao telefone porque achei um absurdo você se livrar de mim daquele jeito?

Eu lembro.

Lembro tanto que nunca esqueci. Nunca esqueci o que tem lá dentro e onde eu guardei. Lembro que ela é colorida e tem bolinhas. Lembro tanto que agora sei por quê você se livrou dela.

Agora eu já não posso mais juntar todas as coisas que eram nossas e te devolver. Pra me livrar eu tenho que jogar fora aquela caixa. Você tem noção que colocou o peso em mim? O peso de jogar a gente no lixo pra finalmente aquela caixa sumir.

Nunca achei que entenderia a decisão que você tomou naquele dia que juntou tudo numa caixa e me devolveu. Hoje, toda vez que olho pra ela, meu sonho é que eu tivesse feito isso no seu lugar. Pra você, ela sumiu sem a culpa de jogar nossas lembranças fora. Pra mim... eu não tenho mais pra quem devolver.


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