A metáfora que eu nunca escrevi

Eu ando olhando os outros como grandes cópias de um padrão que eu crio na minha cabeça. Todos muito substituíveis, iguais. O outro não é o outro, é o que eu quero que ele seja. É uma forma muita chata de se relacionar.

Quando eu percebi isso, achei que olhava todos os outros como criações do meu desejo, mas hoje falei de você. E lembrei que você é você.

Você chegou todo vento solar, usando roupas de calor num dia frio. E quando me olhou e sorriu, senti o calor que vinha de você. Eu nunca mais fui a mesma.

Você foi o ar. Vento solar, brisa, furacão. Você tava sempre ali, mesmo quando eu não te via.

Eu morro de medo de ser uma só com o outro, quero que fique numa distância segura pra que eu não possa me perder. Mas quando a gente se abraçava, a gente era um só, e eu nunca me perdi. A gente virava um grande e aconchegante não-sei-o-que-sou-eu-e-o-que-é-você. Eu amava.

Te amei tanto que quando você foi embora me faltou ar pra respirar. Você era único, mas substituível. Tive que aprender a respirar outros ares, mas não quero nenhum deles tão perto.

Não quero mais que os ares estejam ali quando não posso vê-los, não quero mais furacões (nem quando chegam com as melhores intenções possíveis). Ninguém nunca mais foi vento solar e me esquentou com os olhos, nunca mais me senti uma só com o outro sem ser incômodo.

Você foi embora contrariando toda a minha racionalidade e dando voz a todos os meus medos mais infundados. A gente nunca mais vai ser um grande e aconchegante não-sei-o-que-sou-eu-e-o-que-é-você. Todos os dias eu tenho medo de olhar o outro como alguém e correr o risco de amar assim.

Depois que te amei descobri que só você é você. Não há extensão das minhas vontades e padrões que consiga fazer outro ser como você foi. E, por isso, dói um amor que já morreu e ainda existe. Como estrelas que a gente ainda vê brilhar no céu, mas que já explodiram. Você é minha supernova que aí já é um grande buraco negro, mas por causa da distância, aqui ainda brilha.

Olhar o outro como alguém me lembra que ninguém é você. Olhar o outro como alguém abre as inúmeras possibilidades de conhecer um alguém tão bom quanto - ou melhor que - você. Não quero uma coisa, nem outra.

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