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Fim do mundo

Saí de casa para olhar o mundo enquanto ele acabava. Me sentindo culpada porque eu nasci durante o apocalipse, enquanto tantos outros seres morreram. O céu estava caindo em flores e as pessoas tiravam as máscaras para sentir o perfume. Ninguém queria mais morrer triste. Dos olhos de um recém nascido que não conhece o mundo, não senti nada, porque não sabia o que sentir. Mas no fim daquela fila eterna de gente viva, eu o vi. Foi quando meu olhar entrou em foco pela primeira vez nessa nova vida. E pelos meus olhos eu senti todas as sensações humanas. Quando ele sorriu, meus pulmões perderam a capacidade de me manterem viva, mas eu respirei olhando. E no olhar dele eu me descobri alguém. Eu vi o mundo acabando num céu azulzinho. Senti a grama verde nos meus pés pela primeira vez. Respirei os olhos dele em mim até quando eu não o via. Eu sabia que eu tinha nascido no fim do mundo, mas foi pelos olhos dele que eu pude passar a existir. Ele era tão não-eu quanto ele podia ser e, ainda assim,...

meu aniversário mais estranho de todos

meia noite eu estava com a minha família. a família que eu escolhi e que me acolhe todos os dias como a pessoa que eu sou. que não mediu esforços para que minha virada de dia fosse especial e cheia de carinho. eles estavam ao meu lado, fazendo festa, comemorando o meu dia que é tão importante pra mim. acordei e não me sentia muito no meu dia. li e reli as declarações que eu recebi até agora, pra ver se caía minha ficha que eu estava no dia mais legal do ano pra mim. não caiu. ultimamente eu me pego agradecendo por ser tão feliz. por ser tão amada e admirada como eu sou. por ter tanto todos os dias. acho que estou no meu melhor momento e talvez todos os dias sejam os dias mais legais do ano. tudo isso porque eu internalizei a palavra que descobri ano passado como sendo minha preferida. "possível". e percebi que meu possível é TANTO. eu tenho tantos amigos, tantas pessoas que posso contar todos os dias. recebo tanto carinho, tantas palavras de olhos que me enxergam de uma forma...
 Um dia eu me vi soterrada em responsabilidades. Responsabilidades que não eram minhas, mas que tavam se acumulando ali há muito tempo. Só deixei acumular porque achei que talvez elas fossem minhas, sim. Quem eu achava que era pra dizer que não eram? E as primeiras responsabilidades acabaram sendo bem cuidadas e acomodadas pertinho de mim. Porque era melhor do que ficar sozinha. Aí, toda vez que chegava uma responsabilidade nova ficava mais difícil de dizer que não era minha, já que todas as outras eram. Algumas delas chegavam com uma espécie de laço e eu até agradecia. Eram tantas, que passaram a me sufocar, mas eu nem percebia direito, porque já tava acostumada a viver respirando pouco ar. Eu nem sabia que os presentes eram, na verdade, responsabilidades. Eu esperava receber um presente sem saber direito o que era, e como não sabia, a responsabilidade vinha e eu acabava agradecendo. Quando a gente não sabe direito o que quer receber, a gente aceita o que chega com lacinho. E quan...