close - phlocalyst
00:10, 24 anos, 2020, 7 meses de isolamento social
o lo-fi de uma música que minha mãe cantava sobre meu irmão bebê. algo de mim hoje e algo de mim ontem. o mais perto que eu posso chegar de mim.
sempre esperei muito desse dia, muita atenção, muito aplauso. há um tempo quis viver como um dia normal e aprender a olhar pra tudo que eu ganhasse, com mais carinho. foi muito bonito quando eu percebi que não era dever de ninguém fazer o dia do meu aniversário um dia especial, porque foi nesse momento que eu vi o quanto muita gente fazia isso mesmo assim.
eu tenho um apego muito grande com o simbolismo dos ciclos, aniversário e ano novo principalmente. lembro de sempre tirar um tempinho sozinha nesses dias e lembro também de escrever nesses momentos, sempre que possível. é minha necessidade de controle. o que não tava bom podia melhorar, eu só precisava pensar um pouquinho no que eu queria que fosse diferente.
quem eu sou? o que eu fiz nesses anos todos? eu gosto de mim? me fiz muito essas perguntas. respondi muitas vezes todas elas. todas as vezes argumentei com todas as palavras possíveis. é minha necessidade de controle.
senti essa necessidade hoje, agora. vinte e quatro anos me pesam, é difícil não ser quem eu esperava ser aos 24. e aí eu me permiti ser essa esther e não fugir da minha sede de controle. decidi usar esse momento pra me olhar com um pouco de carinho pra variar.
aos vinte e quatro conheço a psicanálise e ela me dá o alívio de que nem tudo é linear. sinto que os vinte e quatro me pesam, mas todos os anos me pesaram. eu nunca estive onde eu queria estar, nunca fui quem eu queria ser. e ainda assim, amei. amei lugares, pessoas, animais, cheiros, gostos, sensações, paisagens. e ainda amo. sou capaz de estar feliz, estando onde não queria estar.
não ser linear me tira o peso dessa melhora constante que eu sempre esperei, daquele gráfico que a curva sobe sem parar. não é o ontem que me faz hoje, necessariamente. o hoje me faz ontem, e o hoje foi feito do amanhã, às vezes. eu sou um grande livro de ficção científica e linhas temporais. isso é melhor que ter que ser constante.
aos vinte e quatro eu leio, já li vinte e sete esse ano. encontrei isso em mim como uma coisa nova e como lembranças que me aparecem de vez em quando, mostrando que esse desejo já existia. é algo de mim hoje, com algo de mim ontem.
aos vinte e quatro eu ainda tenho os mesmos problemas com o amor romântico que eu tinha aos quatorze. mas eu nunca deixei de tentar. hoje meu tentar é em análise e não mais numa procura desesperada do outro que me salvaria. mas gosto de pensar que não sou necessariamente melhor do que eu era, hoje. fui corajosa de tentar. sou corajosa de tentar, da forma que eu achar melhor.
aos vinte e quatro moro num apartamento gostoso com meus dois gatos. descubro todos os dias como cuidá-los e como me cuidar. descobri o conforto no meio dessa descoberta do cuidado. descobri também vícios e outras tantas pequenas coisas que me construíram como esther. adulta. vinte e quatro anos. e das coisas boas às coisas ruins, gosto de todas elas.
sinto falta de todas elas hoje. cinco de outubro, meia noite e cinquenta e dois. há sete meses longe do meu apartamento e do que me construiu. sete meses que eu sinto um medo de me perder de mim a qualquer momento. essa casa me lembra aquela esther de quatorze e a necessidade de controle sem saber que era. e a dor do amor romântico desesperado sem entender. e a solidão. tenho tanto medo de voltar a ser ela que não consigo acolher a memória dela com carinho. quando eu era ela, tudo que eu precisava era ter sido acolhida com carinho.
tenho medo dessa casa engolir a mulher de vinte e quatro anos. escolhi não responder a grande pergunta do fechamento de ciclos: "quem sou eu?" no dia de hoje, porque eu não sei quem sou. e tenho medo de responder e sentir que não tenho nada que me ligue a quem eu fui. mas também tenho medo de responder e sentir que tem muita coisa que me liga a ela.
aos vinte e quatro ganho muito carinho. mas não só aos vinte e quatro. de qualquer forma hoje vejo esse carinho com menos grandes expectativas. como é bom ser amada. do jeito possível do amor.
meu percurso de controle e "auto conhecimento" melhorou muito com a psicanálise. é ela quem me da a minha palavra preferida (acabei de descobrir). Possível. e não "possibilidade". possível. sou e fui a esther possível, amei como era possível, fui amada como foi possível. tive (e tenho) uma mãe da forma que era possível pra ela e fui (e sou) a filha que consegui ser. hoje sonho um pouco mais com o amor possível e menos com o amor romântico que eu sonhava.
aos vinte e quatro estou onde foi possível estar. sou universitária e estudo onde eu não queria estudar. gostaria de já estar formada e não estou. moro numa cidade que eu não queria. mas na hora que foi possível, eu me matriculei na universidade possível, na cidade que ela foi construída. e essa vida possível me deu coisas as quais eu nunca abriria mão.
me sinto um pouco mais próxima de mim mesma. sinto que estou caminhando pra um dia poder me acolher - hoje e ontem. estou feliz, aos vinte e quatro, da forma possível de se estar feliz em 2020.
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