Sobre caixinhas, etiquetas e histórias de amor

Te falei da urgência que senti de falar sobre uma história de amor que já passou, né? Hoje não sinto mais essa urgência, mas ainda sinto vontade de falar de amor.
Quando comecei a te escrever, há muitos anos, não sabia que escrevia pra você, achava que escrevia pra mim. E quando comecei a escrever pra você, conscientemente, não percebia que você sempre fui eu. Até hoje não sei onde termino eu e onde começa você, mas gosto assim.
Escrevi pela ânsia de organizar, saber sentir, dar nome, explicar, provar. Aprendo diariamente a aceitar - de verdade - que nem tudo se explica, se organiza, faz sentido. O amor não é tão apegado a cronologia, como eu sou.
Foi querendo que tudo fosse cronológico e arrumado em caixinhas muito bem etiquetadas, que perdi de fazer o que eu mais gosto: contar histórias de amor. Às vezes eu não estava num momento bom pra escrever, não saía bonito...Ou eu achava que não merecia ser escrito (u absurdo!). E aí, na mania de ser apegada à datas, o tempo passava e eu não contava mais.
De alguma forma foi bom esperar um tempo, eu sinto que algumas histórias ficam ainda mais bonitas quando a gente enxerga de longe. Não me entenda mal, eu amo o que te escrevo. Amo cada pedacinho da dor que eu pinto nas palavras do papel pra te contar. Amo como te sentir doído parece obra de arte. Mas esse sentimento se vai com o tempo - que bom - e a memória fica, às vezes mais gostosa do que era. Com o tempo a gente lembra só do que faz sentido lembrar.
Hoje sinto uma vontade de escrever pra contar essas memórias bonitas, mas antes eu só escrevia pra te etiquetar. Criei padrões malucos ao longo dos anos e quis que você coubesse a todo custo. É claro que você não cabia, você era real e eles não cabiam na realidade. Mas eu não entendi isso, e comecei a achar que eu é que não merecia o grande padrão de amor que eu idealizei.
Vou-te ser sincera, demorei pra entender qual era a lógica que eu, inconscientemente usava. E era mais ou menos assim: pra você ser você, tinha que vir pouco, e tinha que vir com um crachá dizendo "oi, meu nome é Amor. Como posso ajudar?". Eu, tinha que ter esperado pacientemente por você, guardando meu coração - e principalmente meu corpo - pra sua visita. Se acabasse, tudo bem te amar de novo, mas tinha que demorar, e claro, tinha que te deixar entrar só quando visse seu crachá. E é claro que o tal do seu crachá vinha com umonte de atribuições... Você me amaria de volta e nunca me deixaria duvidar. Você me diria que nunca encontrou ninguém que te fizesse sentir isso - amor, é claro. Não teria idas e voltas, nem dúvidas. E depois de um tempo - curto -, não teria nem diferenciação do que era eu e do que era você.
Um dia, você veio inteirinho nesse padrão, mas já era eu quem não cabia nele. Você, melhor que ninguém, conhece a história, né? Cartas e mais cartas chegando todos os dias, pedindo desculpas por já ter me apaixonado antes, beijado antes, sonhado antes. Não te amei tranquilo porque achei que não te merecia.
Vendo por esse lado, acho que faz sentido o por quê fui tão feliz quando acabou. Não feliz de te perder, mas fui feliz de livre. Guardei a minha história de amor dos sonhos e fui me esticar por aí, já que não precisava mais tentar caber no lugar apertado que eu mesma criei. Não durou muito tempo essa liberdade.
Fui sentindo um frio na barriga atrás do outro. Vivendo umonte de histórias de amor - às vezes muitas ao mesmo tempo - e, quando vi, já tava me apertando naquele lugar pequeno de novo. Ninguém podia ser você! (Mas eu queria que fosse). Eu não podia sentir isso por qualquer um! (Mas sentia). E vinha a culpa, a negação, e depois a tentativa falha de me perdoar te guardando em várias caixinhas e etiquetando: "esse aqui é amor", "esse foi quase", "mal me lembro quem era esse aqui". É claro que quanto mais eu criava caixinhas, menos eu cabia, menos você cabia, menos a gente podia existir.
Como eu te disse, sigo todos os dias tentando desfazer essas caixinhas, essa fixação cronológica e essa pressão pra te amar com script. Ainda falta chão, não vou mentir, mas todo dia eu dou um passo. Hoje, o que eu sei, é que tenho minhas histórias de amor favoritas e que elas merecem ser contadas cheias de palavras floridas como eu gosto de usar pra te escrever. Não sei sobre você e não sei sobre mim também, amor. Sei sobre minhas memórias e sei que não quero mais me apertar nesse padrão que eu nunca coube.
Quero gastar minhas palavras contando e recontando as histórias de amor que eu mais gosto. Olhando cada uma delas de umonte de ângulos diferentes e, com sorte, depois disso, achar bonito eu não caber nos meus padrões. Por enquanto eu me odeio todos os dias por não caber neles. E tô cansada de me odiar.

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