São Paulo

Eu andei naquela cidade como se fosse a mais linda do mundo. Caminhei com a liberdade de quem sabe exatamente quem é. Olhei pra aquele monte de gente como quem sente o conforto de estar bem no centro do mundo, juntinho. E mesmo no meio do mundo de gente, eu o vi.
Se eu pudesse construir alguém do zero, nos mínimos detalhes, naquele momento eu não saberia fazer. Mas quando eu o vi, foi como se eu tivesse construído. Olhei pra tudo que eu queria e não sabia. E na liberdade de ser exatamente quem eu queria ser, descobri mais uma parte de quem eu era.

Ele me olhou de volta, no meio de uma rua cheia de gente, na cidade mais maluca do mundo. E não só me olhou de volta, como apressou o passo pra me alcançar. Que bom que ele fez isso. De pertinho ele era ainda mais feito-pra-mim. E eu nem me lembro de nada do que disse naquele momento. A cidade mais linda do mundo apagou em volta dele, e eu só via aquele rosto que eu fiz em detalhes e não sabia. Tudo isso durou uns dois minutos, ou umas vinte horas, não faço nem ideia.

Entrei no carro do cara mais legal do mundo, com a segurança de quem conhece aquela pessoa a vida toda. Bebi cerveja na companhia dele como se a nossa vida sempre tivesse caminhado lado a lado. Andei sem rumo com ele pela cidade mais linda do mundo, e foi assim que ele me emprestou seus olhos pra vê-la. Do topo do mundo eu senti o céu me abraçar. E ele também me abraçou. Como se a gente tivesse vivido - juntos - outras vidas além dessa.

A gente se confundiu no chão, no colchão, no carro, como se não existisse mais ninguém no mundo. Conhecemos amigos e saímos juntos como um casal de anos, comentando sobre as manias um do outro que a gente tinha acabado de perceber. Conversamos com os olhos muitas vezes, sem conseguir dizer em palavras como era loucamente bom encaixar daquele jeito com alguém. E encaixamos mesmo, como se no meio da maior cidade do mundo, a gente tivesse sido puxado pra perto um do outro como imã.

Foi a noite mais comprida do mundo, e quando o sol começou a nascer, achei que tinha acabado de viver o maior ponto fora da curva do mundo. Mas uma noite dessas eu descobri que o cara mais legal do mundo não era o único cara mais legal do mundo. Tinha um montão de pontos, de imãs. Mas não eram eles que estavam fora da curva, era eu.

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