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Mostrando postagens de 2018

Por mim não tem final

Um dia o passarinho nunca mais voltou. É.. não sei o que dizer além disso. Acho que eu aprendi com a forma de te olhar, que explicações não são sempre necessárias. E eu não as pedi. Minha janela continua aberta como quem espera que ele pouse novamente, mas aqui dentro eu tento fingir que tudo bem. Te escrevi com a alegria do amor que vem da liberdade e, por mais que eu quisesse te ter aqui dentro, sabia que existiam chances de isso não acontecer. Li a carta anterior antes de te escrever essa e, pra falar a verdade, é a única coisa que eu li sobre nós dois desde que você voou. Todos os dias eu me cobro a chuva que devia cair pra limpar, eu sei que tenho que sentir sua partida pra um dia poder curar a sua falta, mas tenho medo da dor. Eu vou aproveitando suas outras faces que, vez ou outra, batem na porta e finjo que foi felicidade suficiente os dias que vivi voando com você. Esses dias acabei numa tirinha que dizia que a vida é um universo, você caminha pela tristeza escura e, às ve...

Corre pra varanda e vem cá ver

Acho que fiquei presa na minha casinha por muito tempo e mesmo que talvez eu precisasse desse tempo todo, senti falta de olhar o céu. Mesmo quando comecei a te ver como um universo, tive medo de olhar pra fora, fiquei achando desculpas pra não sair. Eu não preciso ir lá fora, pensava, você sempre bate na porta e traz as estrelas aqui dentro pra eu sentir. Um dia desses, um passarinho pousou na minha janela e cantou do jeitinho mais bonito que eu já tinha visto. Não que eu realmente tenha prestado atenção em todos os passarinhos que cantavam perto de mim, mas aquele canto me fez querer ir lá fora olhar o céu, mesmo que de dia. De tempos em tempos, o passarinho pousava e me chamava pra ir lá ver, o céu sempre tinha algumas estrelas diferentes do que eu já tinha visto e além disso, tinha o canto de outros pássaros que eu nunca tinha percebido. Eu passei a olhar o céu, amor, de verdade. De dia, aquela imensidão azul que eu sentia me abraçar e de noite, aquele infinito de estrelas que tan...

Como uma supernova

Oi, amor! Hoje eu tava pensando em você e nas estrelas que coloca no meu peito quando chega de mansinho. Descobri, numa dessas pesquisas sem grandes intenções, uma galáxia chamada "galáxia dos mil rubis" e ela é absurdamente linda. Universo é algo que me lembra muito você, sabia? É o mesmo misto de admiração, que me derrete de tanta beleza e complexidade, e o medo do infinito desconhecido que foge do meu controle. Ela fez meus olhos brilharem mais que as outras, porque ela é conhecida por ser uma das galáxias que mais produzem supernovas -inclusive é isso que dá o brilho rubi pra ela- e supernovas são uma das minhas coisas preferidas no universo. Talvez seja clichê falar, mas supernovas também me lembram você. Elas são explosões muito brilhantes que acontecem no final da evolução de uma estrela, e como você já deve estar imaginando, depois disso a estrela vai morrendo aos poucos. Mas a explosão é linda e hipnotizante igualzinha você, amor. Como o mundo é maior que o que t...

Nem consegui fazer chover

Sei que já te escrevi hoje, mas é que quando eu estava voltando do correio, um vizinho que sempre aparece aqui pra conversar estava me esperando na varanda. São sempre conversas muito doloridas, mas cheias de bons pensamentos posteriores, por isso acabo nem falando com você sobre isso, resolvo tudo aqui dentro sozinha. Eu me orgulhava de dizer que era muito boa em me comunicar com as pessoas, que eram raras as vezes que sentia um incômodo ao tocar em algum assunto ou que eu escondia como verdadeiramente estava me sentindo. Com essas conversas constantes, acabei percebendo que engolia muito do que eu deveria falar e entrava em casa depois pensando ter chegado à alguma conclusão. Muito inocente. Hoje o tal vizinho me perguntou como eu estava, respondi prontamente que estava feliz, tinha sido uma semana calma, poucas coisas fora do lugar. Contei da carta que eu tinha acabado de te enviar e que eu estava feliz com o resultado dos escritos. Fomos falando de você... o que não é um problema...

Olha nos meus olhos e vem

Oi, amor Comecei a escrever essa carta pronta para dizer que ela não ia ser endereçada a ninguém, mas pensei que, mesmo que eu achasse que não estava falando de você, eu sempre estou. Desde que comecei a te escrever, há muitos anos, mesmo antes de serem cartas, os escritos já eram destinados para uma só forma de quem você é. Acho que meu erro foi decorar esse seu rostinho. Você tem muitas formas e eu vivo pedindo pra que você apareça diferente aqui em casa, mas eu sempre escrevo para o mesmo amor de sempre. Hoje eu queria dizer que cansei de escrever para essa sua forma, não porquê não gosto dela -o que se eu dissesse, estaria mentindo- mas porque acho que suas outras formas merecem algo de mim também. Tudo é você e eu sempre soube. Eu posso endereçar essa carta para qualquer outra coisa que eu diga a mim mesma que estou sentindo, mas a verdade é que tudo é você. As pessoas acham pesado chamar pelo seu nome, como se as coisas precisassem ser enormes, únicas e incríveis para serem c...

Laranja

Escrevo essa carta e sinceramente, não sei pra quem. Pensei, a princípio, em escrever para a tristeza, mas não foi por causa dela que meus olhos inundaram. Quando eu li a carta que escrevi para o amor, há um ano, minha vista ficou embaçada de tantas lágrimas que quiseram correr ao mesmo tempo. Foi de dor. Dor da perda. Mas perda doída, de desespero, e não de tristeza. Quando aquela carta foi escrita, recebida e lida milhões de vezes, a sensação era a melhor que eu já tinha tido. Minha casinha se enchia de um sol quentinho que me abraçava e uma brisa dizia que eu estava no lugar certo, na hora certa e que eu era eu. Não sei em que momento esse sol deixou de aparecer, mas veio uma tempestade diferente de todas que já tinham aparecido por lá. Invés de só bagunçar a casa, como era de costume, essa tempestade arrancou o teto, derrubou as paredes, levou os móveis, as roupas, as plantinhas da varanda. Não sobrou nada. Eu fiquei perdida nos escombros por um tempo -que eu realmente não consegu...

Me desconheci

Querido amor, Faz um ano que não te escrevo e dessa vez sei que não é por preguiçoso e nem por covarde. A verdade é que nesse ano me perdi e no meio de tanta bagunça eu não conseguia pensar em te escrever. Sabe, colocar em palavras o caos às vezes dói mais do que só vivê-lo dia após dia -e foi isso que eu fiz: vivi-. Em algum momento, que não sei direito qual foi, eu mudei de endereço; ainda moro numa casinha de madeira com varanda, mas ela é de outra cor e em outra rua. Por dentro, os cômodos são bem diferentes e quase todos os móveis são novos, alguns só que eu trouxe comigo da antiga casa, mas talvez nem eles você reconheça. Se me perguntar o que eu acho da cor da casa ou dos móveis novos, eu não sei... A rua nova tem bons vizinhos, mas a antiga também tinha. À tarde pega um sol bonito na janela da sala; na outra casa, também batia um sol quentinho. Sei que faz sentido estar aqui agora, mas não sei muito mais do que isso. Escrevo pra te dar meu novo endereço e dizer que se quiser ...