Olha nos meus olhos e vem
Oi, amor
Comecei a escrever essa carta pronta para dizer que ela não ia ser endereçada a ninguém, mas pensei que, mesmo que eu achasse que não estava falando de você, eu sempre estou. Desde que comecei a te escrever, há muitos anos, mesmo antes de serem cartas, os escritos já eram destinados para uma só forma de quem você é. Acho que meu erro foi decorar esse seu rostinho. Você tem muitas formas e eu vivo pedindo pra que você apareça diferente aqui em casa, mas eu sempre escrevo para o mesmo amor de sempre.
Hoje eu queria dizer que cansei de escrever para essa sua forma, não porquê não gosto dela -o que se eu dissesse, estaria mentindo- mas porque acho que suas outras formas merecem algo de mim também. Tudo é você e eu sempre soube. Eu posso endereçar essa carta para qualquer outra coisa que eu diga a mim mesma que estou sentindo, mas a verdade é que tudo é você. As pessoas acham pesado chamar pelo seu nome, como se as coisas precisassem ser enormes, únicas e incríveis para serem chamadas de amor. Eu já te vejo tão simples, te vejo em todo o canto e até te confesso que sempre desconfiei que a tristeza, na verdade, é você disfarçado. Mas mesmo que eu esteja errada e você não seja simples... Se pensar bem as coisas simples nem mesmo existem, tudo é enorme, único e incrível. Cada segundo é vivido uma vez só e cada pessoa é tão singular que não pode e nem deve ser comparada. Já parou pra pensar na beleza que são duas pessoas, únicas, se relacionando de qualquer forma, amor? São basicamente dois universos que se abrem para que possam se fundir de algum jeito. E é assim, nosso universo sempre acaba levando um pedacinho do outro e deixando um pedacinho nosso, nem que seja numa conversa de vinte minutos.
Eu me enrolei toda mas foi pra te contar que eu comecei a olhar as pessoas que batem aqui na porta de um outro modo. Não mais procurando você com o rostinho que eu conheço e nem mesmo me assustando quando parece com você do outro lado do olho mágico. Eu só comecei a me deixar sentir a cada visita que eu recebo. E sabe que anda sendo bem curioso tudo isso.
Esses dias mesmo, ouvi uma batida na porta, mas foi tão fraquinha que eu ouvi só porque tava um silêncio daqueles que a gente ouve a própria respiração. A visita já estava cansada de bater, quando eu finalmente abri, e por isso já foi entrando e fazendo seu próprio chá. Eu bem que gostei, achei charmoso. Tomamos um chá e foi muito rápido como a casa toda inundou de muitos cheiros e de muitas sensações. Confesso que me deixei sentir só pra saber como ia ser. E foi como você.
Foi como quando você chega devagarinho aqui e faz doer o peito, venta bem forte no estômago, faz rir e tira o sono. Mas dessa vez ainda de quebra, ganhei umas rimas bem bonitinhas. Foi bem bom deixar essa visita entrar, amor. As suas formas novas são tão mais interessantes... não que a outra não seja, mas essas vêm com uma quantidade tão grande de possibilidades. Basicamente uma galáxia toda entrou aqui, mexeu na casa toda, foi embora, voltou, deixou tudo no lugarzinho que estava, me deu uns versos de presente e vai saber se não deixou umas estrelas perdidas por aqui?
É tão mais bonito quando você me constrói através de um pouquinho das outras pessoas, amor. Obrigada pelo friozinho na barriga, eu sabia que era você.
Com o peito cheio de estrelas,
Esther
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