Laranja

Escrevo essa carta e sinceramente, não sei pra quem. Pensei, a princípio, em escrever para a tristeza, mas não foi por causa dela que meus olhos inundaram. Quando eu li a carta que escrevi para o amor, há um ano, minha vista ficou embaçada de tantas lágrimas que quiseram correr ao mesmo tempo. Foi de dor. Dor da perda. Mas perda doída, de desespero, e não de tristeza.
Quando aquela carta foi escrita, recebida e lida milhões de vezes, a sensação era a melhor que eu já tinha tido. Minha casinha se enchia de um sol quentinho que me abraçava e uma brisa dizia que eu estava no lugar certo, na hora certa e que eu era eu. Não sei em que momento esse sol deixou de aparecer, mas veio uma tempestade diferente de todas que já tinham aparecido por lá. Invés de só bagunçar a casa, como era de costume, essa tempestade arrancou o teto, derrubou as paredes, levou os móveis, as roupas, as plantinhas da varanda. Não sobrou nada. Eu fiquei perdida nos escombros por um tempo -que eu realmente não consegui contar- e quando finalmente consegui levantar e tentar reconstruir do jeitinho que era, no mesmo endereço, recebi uma carta dizendo que nada daquilo pertencia a mim mais e que eu teria que me mudar. Me mudar pra onde? Tudo que eu já havia conhecido nessa vida era aquela casa, aqueles móveis, aquelas louças, lençóis e cortinas. Aquilo era eu; como alguém poderia me dizer que não pertencia a mim?
Naquela época, era inverno, e eu não poderia me dar ao luxo de ficar sofrendo em cima dos escombros ou lutando pra que me deixassem reconstruir a casa no mesmo terreno. Estava frio demais pra isso. Eu andei muito, até me perder no meio daquela cidade que eu achei que conhecia... Não tinham mais lotes vagos em ruas por perto, eu acabei indo parar num bairro muito distante -mas incrivelmente bonito-. Comecei a construir a minha casa bem rápido e da forma que dava naquele momento -eu só precisava de um teto e paredes pra me esquentar-. Ela foi ficando bonita... é de madeira, como era de se imaginar. Um dia fez sol e eu pintei ela de laranja, só pra ver ela ficar bonita.
E foi nesse momento que senti necessidade de escrever essa carta. Não sei porquê escolhi laranja e não azul. A minha antiga casa era cor-de-rosa, mas quando eu fui comprar a tinta dessa vez, não me lembrei da vez que tinha escolhido essa cor. Dentre todas as opções, eu nem me imaginei escolhendo cor-de-rosa. Não é estranho? Outro dia saí para escolher as cortinas e também não sabia direito como escolher, acabei não comprando nenhuma. Até quando fui comprar uma caneca pra tomar chá, não soube bem que cor e que tamanho levar, acabei tomando num copo americano.
Aquela casa realmente não me pertencia. Eu não sei bem se o que eu achava que era eu, não era eu; ou se era eu e agora não é mais. O que eu sei é que dói não conseguir escolher o tecido do lençol porque você não se conhece o suficiente pra saber se acha algodão ou seda mais confortável. Hoje quando eu preciso decidir eu levo todos -assim eu descobri que meu chá preferido é mate com canela-; e cada descoberta assim é uma vitória. Mas nem sempre é fácil comemorar.
Quando eu li aquela carta, um ano depois, lembrando minha felicidade em estar na casa cor-de-rosa, com aqueles móveis e tomando aquele café -que hoje não se parece em nada com aqui dentro-, a dor foi tão grande que eu senti me amassar inteirinha. A sensação foi parecida com nascer de novo em outra vida, mas sem nunca ter morrido.
Um dia tudo caiu e quando eu precisei construir de novo eu não sabia mais nada sobre mim. Eu não sei quem responsabilizar por isso. E é por esse motivo que essa carta vai sem destinatário. Não sei nem nomear o que estou sentindo pra poder culpar alguém.
Espero que eu acabe descobrindo quem eu sou e que eu encontre alguma ponte entre as duas eu, pra que eu não me sinta tão ninguém.
Com carinho (eu acho),
Esther

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