Nem consegui fazer chover
Sei que já te escrevi hoje, mas é que quando eu estava voltando do correio, um vizinho que sempre aparece aqui pra conversar estava me esperando na varanda. São sempre conversas muito doloridas, mas cheias de bons pensamentos posteriores, por isso acabo nem falando com você sobre isso, resolvo tudo aqui dentro sozinha.
Eu me orgulhava de dizer que era muito boa em me comunicar com as pessoas, que eram raras as vezes que sentia um incômodo ao tocar em algum assunto ou que eu escondia como verdadeiramente estava me sentindo. Com essas conversas constantes, acabei percebendo que engolia muito do que eu deveria falar e entrava em casa depois pensando ter chegado à alguma conclusão. Muito inocente.
Hoje o tal vizinho me perguntou como eu estava, respondi prontamente que estava feliz, tinha sido uma semana calma, poucas coisas fora do lugar. Contei da carta que eu tinha acabado de te enviar e que eu estava feliz com o resultado dos escritos. Fomos falando de você... o que não é um problema pra mim, visto que só falo disso o tempo todo. Mas ele quis mesmo era falar de você daquela forma, sabe? Aquela que eu disse que não me assustava mais.
Procurei todos os argumentos que tinham dentro de mim pra dizer que eu não tinha mais medo das suas chegadas e que eu acreditava que você ficaria de novo um dia por mais tempo e que nos daríamos bem como da primeira vez. Inocente de novo.
Sem que eu percebesse ele foi entrando em casa e achando toda a sujeira que estava escondida embaixo dos móveis mais pesados, do tapete que eu não levantava pra limpar, de cima do armário mais alto... Foi apontando para aqueles cantos sujos e dizendo "isso tudo aqui não foi ele quem deixou?" "você se esqueceu de limpar ou está só fingindo que não te incomoda essa poeira?".
E eu nem consegui fazer chover pra limpar, amor.
Sabe, eu não achei que a casa estava toda construída, nem toda arrumada, nem toda bonita; mas eu achei que ela estava boa pra te receber. A verdade é que eu espero sua chegada o tempo todo, mas só quero que você fique, quando você faz bagunça. Eu espero sua chegada e eu espero você ir embora, para eu poder esperar sua chegada de novo. Parece que o que me faz feliz é só mesmo sua batida na porta e que me dá prazer esse seu eu que não pode ficar.
Não sei em que momento isso se plantou aqui dentro, mas anda crescendo tal qual erva daninha e eu nem vi que tomou conta de todo o meu quintal.
Sinceramente, eu não quero te ver indo embora. Eu sinto falta de dormir juntinho e não ter medo de você sumir na manhã seguinte. Mas alguma coisa aqui dentro ignora o meu querer. Digo que gosto de todas as suas faces mas a que eu procuro é essa que está sempre muito ocupada pra ficar.
Eu nem ia falar com você sobre suas idas e vindas dos últimos meses... eu só fingi que eu estava bem com seu entra e sai e que estava muito mais focada e feliz com seus outros rostos novos. Eu devo ter mentido tão bem que menti pra mim mesma. Eu gosto mesmo é do costume da dor de te ver indo embora. Talvez seja a única coisa familiar que sobrou.
Voltei pra estaca zero, amor. Sinto muito.
Eu me orgulhava de dizer que era muito boa em me comunicar com as pessoas, que eram raras as vezes que sentia um incômodo ao tocar em algum assunto ou que eu escondia como verdadeiramente estava me sentindo. Com essas conversas constantes, acabei percebendo que engolia muito do que eu deveria falar e entrava em casa depois pensando ter chegado à alguma conclusão. Muito inocente.
Hoje o tal vizinho me perguntou como eu estava, respondi prontamente que estava feliz, tinha sido uma semana calma, poucas coisas fora do lugar. Contei da carta que eu tinha acabado de te enviar e que eu estava feliz com o resultado dos escritos. Fomos falando de você... o que não é um problema pra mim, visto que só falo disso o tempo todo. Mas ele quis mesmo era falar de você daquela forma, sabe? Aquela que eu disse que não me assustava mais.
Procurei todos os argumentos que tinham dentro de mim pra dizer que eu não tinha mais medo das suas chegadas e que eu acreditava que você ficaria de novo um dia por mais tempo e que nos daríamos bem como da primeira vez. Inocente de novo.
Sem que eu percebesse ele foi entrando em casa e achando toda a sujeira que estava escondida embaixo dos móveis mais pesados, do tapete que eu não levantava pra limpar, de cima do armário mais alto... Foi apontando para aqueles cantos sujos e dizendo "isso tudo aqui não foi ele quem deixou?" "você se esqueceu de limpar ou está só fingindo que não te incomoda essa poeira?".
E eu nem consegui fazer chover pra limpar, amor.
Sabe, eu não achei que a casa estava toda construída, nem toda arrumada, nem toda bonita; mas eu achei que ela estava boa pra te receber. A verdade é que eu espero sua chegada o tempo todo, mas só quero que você fique, quando você faz bagunça. Eu espero sua chegada e eu espero você ir embora, para eu poder esperar sua chegada de novo. Parece que o que me faz feliz é só mesmo sua batida na porta e que me dá prazer esse seu eu que não pode ficar.
Não sei em que momento isso se plantou aqui dentro, mas anda crescendo tal qual erva daninha e eu nem vi que tomou conta de todo o meu quintal.
Sinceramente, eu não quero te ver indo embora. Eu sinto falta de dormir juntinho e não ter medo de você sumir na manhã seguinte. Mas alguma coisa aqui dentro ignora o meu querer. Digo que gosto de todas as suas faces mas a que eu procuro é essa que está sempre muito ocupada pra ficar.
Eu nem ia falar com você sobre suas idas e vindas dos últimos meses... eu só fingi que eu estava bem com seu entra e sai e que estava muito mais focada e feliz com seus outros rostos novos. Eu devo ter mentido tão bem que menti pra mim mesma. Eu gosto mesmo é do costume da dor de te ver indo embora. Talvez seja a única coisa familiar que sobrou.
Voltei pra estaca zero, amor. Sinto muito.
ah <3
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