Me desconheci
Querido amor,
Faz um ano que não te escrevo e dessa vez sei que não é por preguiçoso e nem por covarde. A verdade é que nesse ano me perdi e no meio de tanta bagunça eu não conseguia pensar em te escrever. Sabe, colocar em palavras o caos às vezes dói mais do que só vivê-lo dia após dia -e foi isso que eu fiz: vivi-. Em algum momento, que não sei direito qual foi, eu mudei de endereço; ainda moro numa casinha de madeira com varanda, mas ela é de outra cor e em outra rua. Por dentro, os cômodos são bem diferentes e quase todos os móveis são novos, alguns só que eu trouxe comigo da antiga casa, mas talvez nem eles você reconheça. Se me perguntar o que eu acho da cor da casa ou dos móveis novos, eu não sei... A rua nova tem bons vizinhos, mas a antiga também tinha. À tarde pega um sol bonito na janela da sala; na outra casa, também batia um sol quentinho. Sei que faz sentido estar aqui agora, mas não sei muito mais do que isso.
Escrevo pra te dar meu novo endereço e dizer que se quiser passar aqui tomar um chá, é bem-vindo. Percebeu que não te chamei mais pra tomar um café? Isso também mudou. Acho que vamos ter que nos conhecer de novo, mas não me parece uma coisa ruim. Durante esse período de mudanças recebi algumas visitas parecidas com você, acho que eram tios, primos, talvez irmãos... Mas não era você. Nem me importei, sabia? Pra ser sincera eu sinto falta de você numa forma que você nunca veio (se é que é possível sentir falta do que eu não conheço); queria que você viesse com meu rosto.
Queria me amar.
Senti sua falta quando me perdi, mas imaginei que você não conseguiria chegar aqui sem endereço. É que eu não reconhecia meu rosto nos espelhos que eu via, quem dirá o número da minha casa. Aos poucos ela foi se construindo, tem uma cor bonita e uns móveis bem confortáveis. O problema é que por dentro tá tudo meio sujo e bagunçado, tem coisa jogada pra todo o lado e às vezes é difícil morar aqui. Mas se você quiser, a gente pode tomar um chá na varanda, ou no meio dos cobertores quentinhos que eu coloquei no colchão que tá no chão da sala. A gente dá um jeito. Eu só queria você aqui.
Quem sabe, se você chegasse, podia dar uma organizada, a gente podia descobrir juntos se eu prefiro pintar a parede ou colocar quadros, se eu prefiro samambaias ou suculentas, se a palette com colchão é suficiente ou se eu quero um sofá na sala. Quero abrir a porta de casa e me apresentar pra você, mas não vou poder fazer isso. Tudo bem? A gente pode dar um jeito de me conhecer juntos e aí poder construir uma história nova nessa casinha.
Espero que queira.
Com carinho, Esther.
Faz um ano que não te escrevo e dessa vez sei que não é por preguiçoso e nem por covarde. A verdade é que nesse ano me perdi e no meio de tanta bagunça eu não conseguia pensar em te escrever. Sabe, colocar em palavras o caos às vezes dói mais do que só vivê-lo dia após dia -e foi isso que eu fiz: vivi-. Em algum momento, que não sei direito qual foi, eu mudei de endereço; ainda moro numa casinha de madeira com varanda, mas ela é de outra cor e em outra rua. Por dentro, os cômodos são bem diferentes e quase todos os móveis são novos, alguns só que eu trouxe comigo da antiga casa, mas talvez nem eles você reconheça. Se me perguntar o que eu acho da cor da casa ou dos móveis novos, eu não sei... A rua nova tem bons vizinhos, mas a antiga também tinha. À tarde pega um sol bonito na janela da sala; na outra casa, também batia um sol quentinho. Sei que faz sentido estar aqui agora, mas não sei muito mais do que isso.
Escrevo pra te dar meu novo endereço e dizer que se quiser passar aqui tomar um chá, é bem-vindo. Percebeu que não te chamei mais pra tomar um café? Isso também mudou. Acho que vamos ter que nos conhecer de novo, mas não me parece uma coisa ruim. Durante esse período de mudanças recebi algumas visitas parecidas com você, acho que eram tios, primos, talvez irmãos... Mas não era você. Nem me importei, sabia? Pra ser sincera eu sinto falta de você numa forma que você nunca veio (se é que é possível sentir falta do que eu não conheço); queria que você viesse com meu rosto.
Queria me amar.
Senti sua falta quando me perdi, mas imaginei que você não conseguiria chegar aqui sem endereço. É que eu não reconhecia meu rosto nos espelhos que eu via, quem dirá o número da minha casa. Aos poucos ela foi se construindo, tem uma cor bonita e uns móveis bem confortáveis. O problema é que por dentro tá tudo meio sujo e bagunçado, tem coisa jogada pra todo o lado e às vezes é difícil morar aqui. Mas se você quiser, a gente pode tomar um chá na varanda, ou no meio dos cobertores quentinhos que eu coloquei no colchão que tá no chão da sala. A gente dá um jeito. Eu só queria você aqui.
Quem sabe, se você chegasse, podia dar uma organizada, a gente podia descobrir juntos se eu prefiro pintar a parede ou colocar quadros, se eu prefiro samambaias ou suculentas, se a palette com colchão é suficiente ou se eu quero um sofá na sala. Quero abrir a porta de casa e me apresentar pra você, mas não vou poder fazer isso. Tudo bem? A gente pode dar um jeito de me conhecer juntos e aí poder construir uma história nova nessa casinha.
Espero que queira.
Com carinho, Esther.
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