Eu já fui um nada perdido em névoa. Um nada que era algo, mas que por não ter nome, não podia ser.
Um sem nome que era todo medo, mas que era algo a mais do que o medo. E por não saber o que era, não podia chamar.
Eu já fui alguém, quando preferia ser qualquer outra coisa que não ela. Que eu me vomitava em flores pra ver se me esvaziava de mim.
Eu já fui você. Fui tanto você, que você não se era mais. E nem eu.
E depois eu fui uma casa que eu não construí. Fui uma casa enorme com cômodos mal planejados como um labirinto. Eu fedia a mofo e flores que eu vomitei.
Um dia derrubaram a casa que eu era e eu fui escombros. Me retiraram antes que eu pudesse ser algo além de um terreno baldio. De forças que eu tinha quando descobri pernas, eu fui andante. Andava à procura de mim, como se eu fosse me brilhar em algo. Fosse saber que era, quando encontrasse.
Me construí num terreno à venda. Ainda casa. Planejada pra durar assim, imutável.
Fui laranja, de madeira, com teto de vidro pra ver o céu. Varanda bonita, grandes janelas. Ali fui cheiro de café e de flores do jardim.
Por causa daquele céu eu fui astronauta. Quase que voava sozinha. Fui desbravadora do universo, até que descobri que eu era parte dele.
Fui tanto supernova que percebi que era constelação. Onde todas as estrelas explodiam e morriam, uma a uma, constantemente.
Mas eu também era alguém na Terra que via as estrelas brilharem enquanto lá elas já estavam mortas. E como eu via tudo, eu não era nada que era possível ser.
Na casa que eu era, não cabia ele. Ele só cabia no céu. E no céu, eu explodia. E morria. Constantemente.
Eu queria ser com ele no chão. Então eu voltei.
Fui turista da terra e molhei os pés no mar. Subi montanhas. E escolhi não voar mais.
Não fui mais casa, sem querer não ser. Só não fui. Ele coube no mundo, com os pés no chão ao meu lado. Sem se mexer.
E aí eu já não era mais turista do mundo. E descobri que queria ser.
Eu já fui um tanto de coisas que eu não sabia e mais um tanto de coisas que eu sabia demais. Nada me cabia onde cabia as pernas dele. E as minhas. Andando em passos diferentes pro mesmo lugar.
Hoje acho que sou um tanto de coisas que não sei, enquanto ainda sou um tanto turista da terra.
Quero andar até onde você é e descobrir o que eu consigo ser quando nossas pernas andam juntas. Em passos diferentes. Pro mesmo lugar.
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