Um dia eu me vi soterrada em responsabilidades. Responsabilidades que não eram minhas, mas que tavam se acumulando ali há muito tempo. Só deixei acumular porque achei que talvez elas fossem minhas, sim. Quem eu achava que era pra dizer que não eram?
E as primeiras responsabilidades acabaram sendo bem cuidadas e acomodadas pertinho de mim. Porque era melhor do que ficar sozinha. Aí, toda vez que chegava uma responsabilidade nova ficava mais difícil de dizer que não era minha, já que todas as outras eram.
Algumas delas chegavam com uma espécie de laço e eu até agradecia. Eram tantas, que passaram a me sufocar, mas eu nem percebia direito, porque já tava acostumada a viver respirando pouco ar. Eu nem sabia que os presentes eram, na verdade, responsabilidades. Eu esperava receber um presente sem saber direito o que era, e como não sabia, a responsabilidade vinha e eu acabava agradecendo.
Quando a gente não sabe direito o que quer receber, a gente aceita o que chega com lacinho.
E quando eu me vi soterrada em um monte de responsabilidade me deu muita raiva. Me deu tanta raiva que eu quis empacotar tudo e devolver. Eu queria nomear cada pacote e explicar com muitos palavrões porquê aquela responsabilidade não era minha. Se deus quiser, vai até soterrar quem me mandou, não eu.
Mas do mesmo jeito que eu não podia deixar de aceitar o presente com laço, eu não podia sentir raiva. Nem podia devolver. Elas tinham nascido endereçadas a mim, já. Tinham sido feitas pra serem minhas. E aí que eu decidi empacotar todas as responsabilidades sentindo a única raiva que eu podia sentir, que era por mim. Você que foi burra demais por ter aceitado o presente que você queria, mesmo sem ser exatamente o que esperava.
As responsabilidades não pararam de chegar porque eu não fechei a porta. E eu não conseguia devolver ou fechar, então eu só sentia muita raiva. E por causa de tanta raiva eu tremia e não conseguia abrir a caixa e comecei a empilhar junto com as responsabilidades que eu tinha empacotado de volta e não tinha tido coragem de devolver.
Quando eu vi, um dia, eu tava soterrada em um monte de caixa que tinham responsabilidades que não eram minhas. Mas que tinham sido feitas pra mim e eu não podia devolver. E eu vi que eu tinha até um pouco de carinho por elas porque eu tinha guardado os laços intactos mesmo que eu cuidasse deles com muita raiva. E percebi que talvez fosse melhor viver ali soterrada em caixas de responsabilidades que não eram minhas, do que ficar sozinha. Afinal, elas vieram especialmente endereçadas a mim.
Comentários
Postar um comentário