Vento solar e estrelas do mar


Oi, amor.
Essa é uma das cartas mais difíceis que eu já escrevi. Tem muitos anos que te escrevo, e nesse tempo todo, tive épocas bem compridas em que nada saía de mim, mesmo que eu quisesse muito escrever. Mas, todas essas vezes, as palavras não saíam porque elas doíam como queimadura.. dessa vez, acho que as palavras não saem porque nem nos meus sonhos mais floridos eu pensei em você vindo desse jeitinho.
Você sabe que gosto de te escrever pra organizar as coisas aqui dentro, muito mais do que realmente te dizer alguma coisa.. e dessa vez não vai ser diferente. Você me vê melhor do que eu mesma e eu fico aqui imaginando você lendo todas as cartas com aquela cara de quem já sabia e só estava esperando eu perceber. Mas sei que no fundo, mesmo que você já saiba de tudo, é bom me ver descobrindo também.

Nesse último ano eu reli as cartas mais antigas que te escrevi e isso era uma coisa que eu evitava até pensar em fazer. Sempre tive a visão de que elas eram dramáticas demais e não faziam sentido nenhum. Inclusive, quando você veio e ficou por mais tempo, elas me assombravam como fantasmas, tenho certeza que você se lembra.. eu passei aqueles anos querendo negar todas as batidas na porta e toda a sujeira que você tinha deixado aqui a vida toda, como se você tivesse apenas um rosto. E por muitos e muitos anos foi assim. Eu tinha certeza que você só tinha uma forma verdadeira e todas as outras, que não ficavam por mais tempo (ou todas as formas que eu nem conseguia imaginar que existiam), não eram você ou não eram reais. Esse foi meu pior erro.
Foram anos que eu tentei lutar contra o que você gritou pra mim desde a primeira vez: você tem muitas e muitas faces. Quando eu entendi isso, eu nunca mais tive medo de você - e, honestamente, achei que isso nunca aconteceria.

Eu queria voltar ao passado e dizer àquela Esther o que eu sei sobre o amor hoje. Não é muito, mas faria ela sofrer bem menos. Queria poder me abraçar naquela época e dizer que tudo bem sentir. Era tudo que eu queria ouvir, sabe. Tudo bem não achar o amor complicado, Esther.

Às vezes eu dou umonte de vai e volta só pra conseguir falar o que eu queria te falar, né?
Depois que li e me deixei viver algumas coisas, te olhei do jeito mais bonito que eu poderia olhar e, suas batidas na porta, na janela, e entradas e saídas foram muito mais leves e incrivelmente mais felizes do que eu imaginava que podiam ser. Muito diferentes, inclusive, do que já tinham sido, mesmo quando você ficou aqui por mais tempo. Mas, amor, você ainda era fácil e previsível pra mim.
Olha, nunca mudou muito do que eu sempre estive acostumada. Você aparecia aqui, entrava, ficava um pouquinho, vinha e voltava em curto espaço de tempo e ia embora. Não voltava mais com aquele rosto.
É sobre uma outra forma que eu quero falar nessa carta.

Um ano e sete meses atrás você veio com um sorriso que foi, definitivamente, o mais bonito que você já usou. Você sorria me ouvindo falar e me fazia gaguejar e esquecer, no mesmo instante, o assunto que eu estava falando. E foi como sempre.. bateu na porta, entrou, ficou um tempo, mexeu aqui e ali, deixou seu cheiro e foi embora. Mas dessa vez você voltou depois de um espaço de tempo maior do que eu estava acostumada e, quando voltou, parecia que o lado da cama ainda te cabia perfeitamente e você não tinha esquecido onde eu guardava os talheres. Você foi vindo, ficando um pouquinho e indo embora durante todo esse tempo e eu acabei te dando a chave da minha casa mesmo nunca te perguntando se você era você. Nunca me acostumei com alguma face sua que era sua e não doía.. e aí eu só fingi que "tudo bem, entra aí, a casa é sua" e me mantive ocupada com seus outros rostos que eu entendia melhor.
Quanto mais o tempo foi passando, mais coisas você lembrava sobre aqui dentro quando você chegava. Parecia até que a casa era tua. Você fazia o melhor chá do mundo quando chegava e sempre elogiava meu perfume. Deitava tão confortável que parecia que a gente tinha um encaixe e sempre me fazia respirar melhor.
Mas eu ainda não te via nesse rosto, amor.

Eu não te via mas eu não me perguntava quem você era, porque a resposta era tão clara quanto meu desejo por você todo esse tempo. É que eu não conseguia te ver em idas e vindas tão longas, com outras aparições de outros rostos seus no meio disso.. e. Sem. Dor.
Não doía e nunca foi um esforço pra não doer. Não é amor se não dói, né?

Esses tempos você veio mais vezes num espaço menor de tempo e entrou aqui feito um furacão, até sua escova de dentes você deixou dessa vez. E eu senti que a gente se olhou diferente, como se pela primeira vez em todo esse tempo, a gente tivesse percebido que aquele encaixe fazia mais sentido do que a gente imaginava. E a gente falou sobre você. Foi assim que te vi pela primeira vez naquele rosto.

Eu queria que essa sua forma tivesse uma metáfora especial e eu nunca encontrava o jeito perfeito de te descrever. A verdade é que nada descreve tão bem quanto eu. A casa.
Todas as vezes que você entrou, e ainda lembrava que eu tomo chá sem açúcar, era você continuando de onde tinha parado quando foi embora. Sempre foi um "até logo". E nessa volta, a gente construía alguma coisa, a quatro mãos, de tijolinho em tijolinho.
Foi tão devagarinho e leve que quase não percebi que realmente se formou. Um dia eu fui te agradecer pelo ar que você traz quando vem me visitar - eu sempre respiro muito melhor -, e no meio duma resposta linda que eu nunca pensei ouvir dessa sua forma, você disse: devemos ser poeira da mesma estrela. O universo. Mais um jeito tão simples de te descrever.
E foi aí que eu te olhei num insight que enxerguei os tijolos que tinha ajudado a empilhar sem perceber.


Quando eu descobri que você tem muitos rostos eu descobri que você não precisava, necessariamente, doer. E te olhando mais infinito do que eu jamais tinha pensado, me questionei como é que existia a chance de você ficar aqui dentro por muito tempo. Numa dessas eu cheguei na ideia que mais me pareceu bonita: amor que dura é o amor que você nunca cansa de explorar a galáxia do outro que todo o dia se expande. Somos universos e a gente tá sempre descobrindo coisas sobre nós mesmos.. amar é conhecer todos os dias alguém que continua sendo interessante e desejado.
Depois de todo esse tempo eu ainda gaguejo quando você sorri enquanto eu falo. E te vejo uma poeira, que mesmo vindo da mesma estrela que eu, tem a diversidade de um oceano pra me mostrar. E eu quero descobrir.

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