Sobre ansiedade, universo e Amor

Oi, amor.

Hoje pensei em enviar uma carta a mim mesma, mas eu queria que ela fosse mais bonita do que eu sou capaz de escrever nesse momento. Queria que a carta fosse um abraço ao eu que sofreu sozinha toda aquela dor, mas hoje eu ainda sinto aquela mesma ave comendo meu fígado eternamente. Não poderia falar nada que fosse me ajudar a sentir melhor. Nem hoje, nem 8 anos atrás.

Bom, há uns meses, descobri a existência de pessoas no mundo que gostam de falar tanto sobre você, quanto eu. E descobri também que existem teorias e até profissões pra isso. Pensei em unir o útil ao agradável e, enquanto estava reconstruindo minha casa, comecei a ler um pouco sobre você, com os olhos de outras pessoas. Li porque, por mais que eu quisesse muito derrubar aquelas paredes de madeira em cima de mim, eu não conseguia, e minha única opção era procurar algum motivo pra continuar erguendo aquela construção. Eu precisava de algo que me explicasse, minimamente, porquê minha casa tinha caído e, de quebra, eu poderia seguir falando sobre você profissionalmente também – já que eu ia ter que continuar viva.
Naqueles escritos eu encontrei duas coisas que eu achei que nunca mais encontraria: fé e eu mesma. “Eu mesma” porque enquanto eu concordava – ou discordava – do que o autor falava de você, eu via em mim alguém que conseguia decidir algo e assim, acabei decidindo os materiais de construção e a planta da casa. “Fé” porque descobri que só existe um jeito de construir uma casa nova depois de acordar no meio dos destroços da que você conhecia: acreditando que vale a pena. É que enquanto eu estava no escuro, invejei quem acreditava em Deus, achei que era a única fé possível. E eu sempre soube que era de fé que eu precisava. Mas eu não acredito em Deus, amor.
Te li enquanto não tinha teto sobre a minha cabeça, te li dormindo embaixo das estrelas. E, aos poucos, tudo que iam me contando sobre você, tudo que eu ia lembrando sobre nós, fazia algum sentido quando eu olhava pro céu. E então eu te enxerguei um universo. Isso fez meu mundo inteiro mudar.

Construí minha casa de madeira, como eu sempre gostei. Cômodos mal definidos, cores de marrom e laranja, janelas grandes e teto de vidro. Você era minha fé, Amor. E dormir sob o céu me lembrava todos os dias que você sempre tem tudo ao seu controle, que você é infinito.
Minha existência se fez mais leve e suas chegadas, também. Lembro da frase que eu usei na primeira carta que te fiz contando sobre o universo que eu descobri em você: “Universo é algo que me lembra muito você, sabia? É o mesmo misto de admiração, que me derrete de tanta beleza e complexidade, e o medo do infinito desconhecido que foge do meu controle.” Mal percebi que ali eu enxergava minha sina.

Os escritos falam de todas as suas formas, inclusive as que bagunçam aqui dentro. Falam que às vezes você destrói mesmo, aponta a sujeira escondida, faz a gente querer fechar a janela com medo que você saia voando – é o seu jeitinho. Eu, toda cheia de mim, sempre me acho uma expert quando o assunto é você, e sempre lia com as janelas e portas escancaradas, vento no rosto e luzes apagadas pra te ver brilhar através do teto. Assim eu sentia que eu e você nos abraçávamos através do ar e nos tornávamos um – essa era a segurança da minha fé. Não que eu estivesse completamente errada, têm rostos seus que existem em mim, sim. Mas têm rostos que só existem fora da minha frequência, e só existem, porque eu não faço a mínima ideia de como lidar com eles.

Quando eu era pequena eu tinha muito medo de tudo que tinha ligação com o universo. Planetas, asteroides, estrelas e buracos negros tiravam o meu sono e me faziam vomitar até esquecer meu nome. Eu não fazia ideia do que era aquilo, mas foi assim que eu desenvolvi o transtorno de ansiedade. Mais tarde, ouvi numa palestra uma psicóloga dizer que medo do universo, em crianças, tem muito a ver com medo do desconhecido e incontrolável.
Você é mesmo um universo. A Esther adulta aprendeu a te admirar com carinho, encher os olhos com a sua beleza e sua complexidade. Eu também aprendi um pouco sobre as constelações, os planetas visíveis a olho nu e as nuvens. Mas você ainda é o medo do infinito que foge do meu controle. Você veio com esse rosto complicado pra me mostrar que eu não sei sobre todas as coisas e que não saber, dói. Veio pra me lembrar que mesmo que eu ache que sei lidar, um pedacinho aqui dentro sempre vai estar meio sujo. É como se eu tivesse um desses seus buracos negros no peito e ele nunca vai encher. De vez em quando ele me dá uma sensação de liberdade e de vez em quando é um vazio infinito.

Amor às vezes dói, às vezes não. Foi isso que eu aprendi sobre você hoje.

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