Eu sempre tive medo de admitir

Oi, amor

Imagino que você deve ter percebido há muito tempo, mas eu sempre te escrevi pra te entender. E sempre acabo achando que te entendi, em algum momento.
Quando você morou aqui, eu achei que tinha te entendido, e quis negar todas as vezes que te senti antes disso, cheia de certeza que você só tinha aquele rosto verdadeiro. Depois disso, eu vi que você nunca mais viria daquela forma, e não vir daquela forma, não queria dizer que você nunca mais viria, então isso queria dizer que você tinha muitas formas. Deduzi que tudo o que vinha, era você.

Mas nem tudo o que vem, é você. E eu descobri isso porque você se mostra no que você deixa aqui. Têm rostos que bateram na porta e eu jurei que eram seus, mas não deixaram sujeira nenhuma aqui dentro. Você não é assim. Você vem e deixa um pouco - e também leva um pouco - mas nem todas as vezes é sujeira que você deixa pra trás.

Seu rosto que morou aqui deixou seu cheiro, invés de sujeira, e ele nunca mais saiu de mim - nem quando eu mudei de endereço. Eu achei por muito tempo que você só era você se não deixasse sujeira quando fosse embora, mas foi assim que eu varri toda a sua sujeira pra debaixo do tapete fingindo que não era sua e não me importando em limpar.

Um dia desses, recebi uma visita que me perguntou sobre um cheiro seu que estava na casa, eu respondi que gostava muito desse cheiro, porque me lembrava uma outra forma sua que eu tinha perdido. Sabe que eu chamo tudo pelo seu nome, mas nunca tenho coragem de dizer que te amo, porque algo em mim ainda queria que o "eu te amo" só fosse dito pra sua forma que me ama de volta. É como se eu dissesse: é tudo Amor, mas não é tudo Amor. Enfim, a visita perguntou sobre esse seu antigo rosto que tinha esse perfume, queria saber se tinha deixado poeira por aqui.. Eu respondi que sim, mas que já tinha limpado há muito tempo. Prontamente ela levantou meu tapete e eu nunca vi nada tão sujo quanto aquilo. Eu nunca tinha limpado nada. A casa inteira se encheu daquela poeira e eu fiquei umas semanas sem conseguir respirar direito. Assim eu descobri algo sobre substituição.

Você veio de uma forma que eu nunca diria que era Amor. Tudo aqui dentro desmoronava com sua visita mas eu ainda respirava melhor do que em qualquer outro momento. Eu odiava dormir sem você, mesmo que com você, a casa toda virasse de cabeça pra baixo. Esse seu eu, nunca me amou de volta, amor. E por isso, eu o mandei embora. Logo coloquei outra visita no lugar e, provavelmente, foi assim que eu coloquei a primeira sujeira embaixo do tapete - porque não dava tempo de limpar antes da visita chegar. Eu me acostumei tanto a colocar a sujeira ali que depois de um tempo eu achei mesmo que a casa estava limpa.

O que eu não tinha percebido até hoje é que eu deixei entrar muitos rostos seus depois disso mas eu só queria que ficassem aqui os que me lembravam muito aquele rosto que não me amou. Os que me faziam respirar melhor, os que não queriam sair de dentro das quatro paredes do quarto. Os que não sabiam me dizer o que queriam e o que sentiam e até os que tinham o seu cheirinho. Eu achava que todos aqueles amores eram amores diferentes e por isso, você era todos eles. Mas todos os amores eram uma substituição de um amor só e todo o amor que eu achava que tinha sido sentido por mim pra vários rostos seus, era eu tentando viver aquele único amor que eu não pude viver.

Hoje eu disse em voz alta que te amo. Amo seu rosto que não me ama e que nunca me amou. Amo seu rosto que não se importa em me dizer oi. E amo tanto esse rosto que tentei procurar ele em muitos outros todo esse tempo.

Quando você morou aqui e teve que ir embora, eu deixei de te amar porque eu senti a dor que precisava ser sentida. É como se eu tivesse limpado a sujeira. Enquanto eu sofria, eu tinha certeza que aquela sua forma era insubstituível e que eu nunca mais amaria ninguém na vida como amei aquele Amor.
Dessa vez, você não veio bonito e eu não limpei a sujeira, porque eu nunca quis admitir que você podia ser Amor de uma forma tão ruim. Assim, passei muito tempo procurando alguém que pudesse te substituir e por causa disso, continuei te amando.
A sujeira tem que ser limpa e a dor tem que ser sentida, aceitando que quando eu te amo, você não é substituível, independentemente de ser ruim.

Mais uma vez eu acho que te entendi. E é horrível como eu trocaria todos os seus rostos por aquele cheirinho que me dá dor de cabeça. Eu te amo com muita sujeira, falta de ar e dor na boca do estômago.
Eu era mais feliz quando ainda achava que te substituir funcionaria.

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