É sempre sobre nós

Oi, amor. Sei que você vai rir ao receber essa carta porque faz tão pouco tempo que te escrevi a última e queria dizer tantas coisas diferentes do que te disse esses dias. Mas vou ficar feliz se você rir, é sempre a minha coisa preferida em você.

Tentar te conhecer é uma batalha diária que eu nunca venço e, sinceramente, talvez seja exatamente isso que eu gosto em você. Dessa vez, não te entender foi a melhor coisa que me aconteceu.
Depois que eu te escrevi a última carta e achei que tinha te entendido, aqui dentro deu uma tempestade que eu achei que ia derrubar minhas paredes e destruir tudo. Você sabe que desde que aquele furacão passou por aqui, eu morro de medo de perder minha casa de novo, e sempre acho que não vou conseguir controlar a chuva que eu preciso pra limpar e vou acabar causando uma catástrofe por aqui.
Por medo de não controlar a chuva, eu não fiz chover por muito tempo e toda a sujeira me causou uma alergia que me deixou até meio tonta. Mas eu fui corajosa, fiz chover e foi tão forte que eu achei que tinha perdido o controle. No outro dia, não fez sol, ainda garoava, mas eu me esforcei pra abrir a janela e ver o estrago.

Aquele mesmo passarinho de meses atrás pousou na minha janela. Ele não me chamou pra ir lá fora, mas cantou pra mim, e aquele canto foi, pela primeira vez, uma música autoral.
Eu achei que tinha aprendido que explicações não eram necessárias, mas infelizmente elas são. São elas que terminam de limpar sua poeira e dão meu cheirinho de volta a minha casa. Talvez a questão seja só em que momento essas explicações conseguem vir.
O canto do passarinho não só me deu a paz que eu queria sobre o nosso amor, como tá me ajudando a limpar aquela poeira que grudou embaixo do meu tapete. Eu tenho certeza que não teve hora mais certa pra você vir cantar pra mim.

Foi tão desesperador ver tanta sujeira num lugar que eu não imaginava, que eu esqueci o quanto o resto da minha casa estava limpa, como minhas paredes estavam firmes e como minhas janelas viviam sempre abertas. Seus outros rostos, sim, me lembravam aquela sujeira, mas foi erro meu dizer que eles eram só substituição de um rosto seu que me sujou. Você percebe como eu sempre me apago quando falo de você? Você e eu somos um, sim, mas seus rostos e eu, não. E não posso acreditar que tudo o que eu vivi nesse ano foi pura e simplesmente substituição de um rosto seu, porque todas as histórias e sentimentos foram reais, diferentes e principalmente, em cada uma delas eu era diferente também.

Quando eu voei com aquele passarinho, e senti que eu podia tocar o céu, eu senti algo que nenhum dos seus rostos já me fez sentir. Eu posso, talvez, ter procurado aquele ar que eu sentia falta no seu rosto anterior, mas a verdade é que eu achei algo muito maior.
É claro que eu preciso limpar aquela sujeira. E que aquilo foi importante. E que aquilo era você.  Mas você, Amor, vibra numa frequência diferente da desse mundo. Eu só sei que você tem muitas formas, mas nunca vou conseguir saber quando elas são maiores ou menores, menos ou mais importantes. Isso é você quem diz. E só quando quer me dizer.

Explicações são importantes no seu tempo. E, às vezes, no meu.
E tempestades são importantes, não só porque elas precisam limpar aqui dentro mas porque eu preciso enxergar que construí paredes fortes o suficiente pra aguentá-las. E, aparentemente, construí mesmo.

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