Fim do mundo

Saí de casa para olhar o mundo enquanto ele acabava. Me sentindo culpada porque eu nasci durante o apocalipse, enquanto tantos outros seres morreram.

O céu estava caindo em flores e as pessoas tiravam as máscaras para sentir o perfume. Ninguém queria mais morrer triste.

Dos olhos de um recém nascido que não conhece o mundo, não senti nada, porque não sabia o que sentir. Mas no fim daquela fila eterna de gente viva, eu o vi.

Foi quando meu olhar entrou em foco pela primeira vez nessa nova vida. E pelos meus olhos eu senti todas as sensações humanas. Quando ele sorriu, meus pulmões perderam a capacidade de me manterem viva, mas eu respirei olhando. E no olhar dele eu me descobri alguém.

Eu vi o mundo acabando num céu azulzinho. Senti a grama verde nos meus pés pela primeira vez. Respirei os olhos dele em mim até quando eu não o via. Eu sabia que eu tinha nascido no fim do mundo, mas foi pelos olhos dele que eu pude passar a existir.

Ele era tão não-eu quanto ele podia ser e, ainda assim, ele tinha o cheiro do meu desejo. O mundo estava acabando e não tinha mais ninguém além da gente. Não tinha minuto seguinte, não tinha expectativa de futuro próximo algum. Eu podia viver minha morte nos olhos dele de longe.

Mas sua voz acordou meus ouvidos e seu toque me contou, com delicadeza, que o céu ainda não tinha desabado e que dava tempo de viver o futuro. E com a luz das estrelas eu vi, de pertinho, o rosto mais bonito do mundo. Minha boca sentiu meu desejo vivo e eu entendi: ele vinha de quem eu me tornei no fim do mundo.

Meus olhos o viram sem que precisassem escolher vê-lo. Da minha coragem de nascer surgiram possibilidades. Na sua pele, nos seus cabelos, no seu sorriso, na sua voz, eu vi tudo o que eu queria e não sabia que podia querer. E na existência verdadeira dele eu aprendi sobre limites. Limites muito mais interessantes do que o infinito.

Pelos olhos dele eu pude existir com o outro, Amor, como eu nunca pude. E o mundo ainda não acabou.

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