Uma semana e meia
Seu rosto novo usa um relógio que marca as horas erradas. Erradas porque não são as mesmas horas que os outros relógios marcam, nem as horas que o resto do mundo escolheu pra funcionar. Eu ri quando percebi isso, disse que você gostava do estilo de andar com o relógio mesmo que ele fosse inútil, mas não pensei que a gente realmente não precisa viver sob as horas que o resto do mundo decidiu viver.
Faz dez dias, e eu nunca contei tanto os segundos como contei nessa semana e meia. Como se eu quisesse me agarrar no tempo mesmo com você gritando pra mim que ele não influenciava em absolutamente nada do que estava vibrando entre a gente. Eu sempre te escrevo pra dizer que o tempo não tem grandes ligações com como você me faz sentir cada vez que vem, mas eu sei que, como todas as outras coisas, te escrevo pra me fazer acreditar, porque sozinha não acredito.
Gosto de dizer que você é a supernova que eu carrego comigo e que é você que explode lindo de encher os olhos e fica cada vez mais perto da morte. Mas dessa vez percebi que essa supernova que eu vejo sou eu, e que o medo da morte sou eu quem carrego. Você veio com seu relógio errado, não se importando com o tempo e eu fiquei contando os segundos. Você elogiou minha supernova e a explosão como se fosse a coisa mais linda que existe e eu, explodindo, senti o maior medo do mundo.
Eu vivo pra te sentir, e viver demais nos faz cada vez mais perto de nunca mais viver. Quando eu sinto muito a vida, eu sinto a morte também, e quando você me faz explodir, eu acho que vou morrer a qualquer momento. A grande diferença é que aqui no universo que você trouxe pra casa quando entrou, o tempo não se mede da mesma forma que na Terra e quando uma estrela explode, ela brilha linda por um infinito terrestre. Ela brilha tanto que parece que é eterna. No tempo do universo, não faz o menor sentido ter pressa, dá tempo de admirar ela brilhar.
Eu te quero tanto e tenho tanto medo, que as coisas todas desandam quando eu tenho você. Eu perco a hora dos compromissos, eu perco a hora de dormir, eu perco meu próprio tempo e eu só quero que tudo pare pra que eu possa admirar você explodir antes de morrer. Eu nunca tinha percebido que não é você que explode.
Pedi pra que você viesse com um relógio marcando as horas do resto do mundo, que você viesse com mapa e com todas as palavras do dicionário pra me explicar nosso universo. E mesmo você, que gosta de Letras, me negou tudo isso. Não negou porque não queria me dar, mas negou porque pra me explicar, você precisava do seu relógio do jeito que ele é, porque é ele que mostra que o tempo nem sempre se marca como a gente se acostuma a marcar. E nem os dicionários de todas as línguas existentes conseguem falar sobre coisas que a gente não conhece. Quando se coloca em palavras, se perde muito do que tá aqui dentro. Dentro de casa, dentro de nós dois e dentro do universo que brilha aqui desde que você chegou.
Eu explodi cedo demais no tempo da Terra e eu morro de medo da morte. Mas eu não vou morrer, amor, eu nunca morri. Sigo te carregando no pescoço como uma supernova que todos os dias explode bonita da mesma forma e você carrega seu relógio com as horas erradas. Uma semana e meia passam voando na Terra, ainda bem que eu não moro lá.
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