Estou paz

Perdão, meu bem, perdão por maldizer-te tantas vezes. Sei que não eras tu em minha porta, sei que não era para ti que eu passava o café, nem contigo que eu dormia. Percebi que nada se constrói pela metade e tu és inteiro.
Não lhe tive, nem por um segundo, pois tu bates na porta depois que a paixão aqui já está. E era ela, toda fantasiada de ti, amor, que entrara todas as vezes aqui dentro.
Eu abri as janelas, sabia, meu bem? Até atendo a porta toda sorridente. Passo um café só para mim.
É bom não ter mais medo das tuas cheganças, porque sei que quando chegares, estarei toda e completamente tomada pela mais pura felicidade. E quem há de ter medo de ti, sabendo disso?
Sei também que tu acabas. Acaba e se refaz e bate a porta novamente. E vem, ensina, demora, ou não... Dá lugar à paixão novamente, tantas vezes, mas volta e faz tudo colorir novamente.
Teu segredo, amor, é que tu acabas. E saber teu segredo é saber lidar contigo e saber aproveitar o melhor das tuas cheganças.
Sou toda tua, desde já. Me doei de corpo e alma quando pensei que a paixão fosses tu. Não vejo a hora de ser tu, meu bem, em minha porta.
Tu és sempre bem-vindo aqui, querido. E a paixão, também. Não que ela se importe em ser bem-vinda.
A porta está aberta e ficará assim, mas não estou sentada no sofá olhando quem entra e sai daqui de dentro, estou cuidando do meu jardim e o vendo florescer.
A paixão é vendaval, tu és brisa. E sem ambos, sou paz.

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