Gosto de sol

Maldizia o destino por atribuir tão má sorte ao que chamava de amor. Acordava com gosto de tarde de inverno em minha boca, tão fria e tão escura. Achava que devia gostar de dias nublados como gostam pessoas como eu, mas nunca me adaptei a viver em dias em que tudo é cinza.
Há tempos não sentia gosto de sol e isso não era culpa do inverno. Maldizia o que nem mesmo acreditava existir e esperava que a vida trouxesse o que infelizmente também não existe. Queria eu acreditar que o destino me traria amor e me faria apaixonada, sem que eu precisasse esquecer meu rancor por ele. Acreditava em sorte, esperava que todos os pedidos feitos às estrelas cadentes e velas de aniversário se realizassem, sem que tivesse o pensamento mudado.
Esperar as coisas acontecerem é como andar em um túnel escuro esperando que a luz venha até você. Eu nem mesmo estava andando...
O gosto nublado não saía de minha boca e eu nem mesmo levantava da cama para beber algo. O quarto estava nublado como eu estava por dentro e isso me parecia confortável. Não jogava meus pensamentos no lixo, pensava em como precisava estudar, como precisava terminar de ler o livro que estava empoeirando na cabeceira, como precisava de um dom... "Tola. Nascemos com um dom." disse uma voz baixinha ao longe. Nascemos? Nós?
Meu mundo é tão oposto ao certo que pensei "Devo ter nascido com falta de dom. E do que adianta procurá-lo?" invés de abrir um sorriso esperançoso que se traduziria como "Nasci com dom, apenas não achei."
Não sorri pois acho que não queria deixar vazar o gosto preto e branco que já tomara conta de mim. Possivelmente eu não estava pronta para ser o único corpo tingido imerso na escuridão do meu quarto.
Curioso era o fato que eu não só maldizia a vida pela falta de amor; maldizia pela falta de tudo que me incomodava. A necessidade do estudo não era o suficiente para me fazer estudar, a vontade de ler não era o suficiente para me fazer separar um tempo e ler em um lugar calmo, nem a necessidade de um dom era suficiente para que eu procurasse coisas novas.
Ao acordar eu pensava no que tinha acontecido para que eu fosse o que era naquele momento. Desperdiçava horas pensando se havia laços entre mim e o "eu" de anos atrás. As outras horas eu gastava organizando as gavetas da minha mente como faço todos os dias -talvez o dia todo- por medo de tropeçar nos meus próprios pensamentos.
Eles mesmos dizem que eu me sobrecarrego o tempo todo, que me obrigo tanto a organizar a mim mesma que o tempo que me sobra eu maldigo a vida pelo que deixei de fazer. Mas dizem que maus hábitos são difíceis de se largar e, no meu dicionário, difícil se iguala a impossível. Eu não mexia um só dedo para deixar de me organizar o tempo todo.
Era muito mais natural, para mim, culpar o destino incerto pelo fato de eu não me apaixonar, não ter facilidade para os estudos, não ler um livro rapidamente, não ter coordenação para fazer música com cordas e o pior de tudo... Não ter força de vontade.
Sim. Maldizia a própria vida pela minha falta de força de vontade. Como se não bastasse maldizer por tudo o que me fazia falta, eu ainda sentava no escuro do túnel esperando que a luz me trouxesse tudo e além disso, a força de vontade.
Era demais... E eu sabia.
Sabia apenas nas vagas horas -que me pareciam infinitas- em que eu passava agonizando no chão frio do banheiro. Ah... Essas horas que pareciam vidas, me faziam prometer à mim e à Deus que eu teria força de vontade pra exatamente tudo o que me fazia falta. Às vezes penso que meu corpo todo se cansou da mesmice, se cansou da faxina diária pois ele não estava "sujo" todos os dias; e de tempos em tempos -curtos, ao meu ver- ele me fazia agonizar no frio apático do chão e me fazer enxergar que nem eu mesma suportava as sobrecargas que colocava todos os dias.
Acordo ultimamente com gosto de manhã de verão e é confortável, pois meu quarto já está, em partes, colorido como eu. Desperto com sede de mudança e me afogo em força de vontade.
Mas nem mesmo me levanto da cama.

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